Orfanato sócio-cultural

 

orfanato sócio-cultural

Depois de 5 anos morando no país com que eu me identifico muito mais do que o meu próprio, a ficha caiu… Não pertenço mais ao Brasil e nunca pertencerei 100% ao Canada.

E de repente, esse sentimento estranho me atropelou, coisa que eu nunca imaginei que aconteceria. 

Sempre tive claro na minha cabeça que como imigrante adulto, não poderia querer ter a bagagem de uma vida que não vivi. Mas nunca imaginei que um dia isso ia acabar pesando para mim… porque não seria só isso.

Terry Fox? Qualquer criança por aqui sabe quem é. Eu só aprendi a (enorme) importância dele para os canadenses porque meus filhos me ensinaram.

Quem são Don Cherry, Wayne Gretzky e Pierre Trudeau? 

Que programas eram “The kids in the hall”, “My secret identity” e “Degrassi High”?

E os comerciais de TV, piadas, comemorações e tantas outras coisas cheias de referências que a gente não tem porque não cresceu aqui?

Ao mesmo tempo as raizes verde-amarelas são fortes, memórias e as tais referências estão aqui, certo? Not really

Vamos começar pelo idioma. Incrivelmente, mesmo sendo nativa em português, depois de “viver em inglês” por 5 anos, palavras do meu idioma materno começam a escapar. Na parte escrita fica mais difícil ainda. Palavras simples começam a não ser tão simples assim. Escrever “successo” (lá vem a mistura de sucesso com success), por exemplo, não é mais tão simples como um dia foi.

Do outro lado vem o que a gente não pensa mas que está ali o tempo todo: o dia-a-dia, a rotina, a vida que segue.

Uma novela que começa, outra que acaba, uma banda nova que aparece, um escândalo político revelado, um time da série A rebaixado, uma escola de samba pequena subindo para o grupo especial….. coisas corriqueiras, que a gente não pensa, vive.

E quando a gente não vive? E quando as coisas que eram as nossas referências não fazem sentido também?

Aos poucos isso foi acontecendo e, como disse lá em cima, a ficha só caiu agora. E por que? Porque ela ainda estava descendo. A vida que seguiu lá, foi apagando aos poucos, foi ignorando a minha existência, quase como se eu tivesse morrido. Acabou pra mim mas não acabou para quem ficou no Brasil.

Percebi que muitas vezes me sinto perdida em grupos de WhatsApp com amigos que moram no Brasil. Quase não procuro notícias de jornais brasileiros online porque não sei mais quem são aquelas pessoas e aqueles assuntos que estão nas manchetes.

Muitas das coisas que eu fico sabendo por aqui, precisam de pesquisa (mesmo) para serem entendidas. Coisas  banais, que para você são corriqueiras, como a tal caneta azul, azul caneta ou a polêmica da Bettina. Para você elas aconteceram, para mim elas precisaram ser pesquisadas.

E ai me vejo hoje aqui, há 1860 dias em outro país, aprendendo tantas coisas que eu nunca imaginei mas perdendo muitas também. Hoje me sinto uma orfã sócio-cultural, por mais estranho que isso possa parecer para você.

E assim é a vida, a gente fecha uma porta e abra uma janela, afinal de contas, não se pode ter tudo, né? 

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